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Um retrato da gravidez não planejada
Pesquisa com 101 gestantes de 12 a 20 anos atendidas no Caism revela fatores de risco e de proteção pouco explorados pela ciência
Por Mariana Garcia - 20/08/2026


Imagem: Reprodução


A cada dez adolescentes grávidas que passam pelo Hospital da Mulher da Unicamp (Caism), oito não planejaram a gestação. A constatação é de um estudo desenvolvido exclusivamente com gestantes com idades entre 12 e 20 anos – a maioria parda (48,5%), estudante (58%), com 10 a 12 anos de escolaridade (78%). As entrevistas foram feitas com 101 moradoras da Região Metropolitana de Campinas que foram atendidas no ambulatório de pré-natal do Caism entre 2017 e 2024. Em média, as respondentes tinham 17 anos, iniciaram a vida sexual aos 14 e engravidaram pela primeira vez aos 16. A maioria estudava quando engravidou, e dois terços responderam que não tinham nenhum conhecimento sobre métodos contraceptivos. Os resultados mostraram, ainda, que viver com o parceiro reduz em 88% o risco de uma gravidez não planejada, enquanto retardar o início da vida sexual diminui a chance em 35%.

Tema de um artigo publicado recentemente no periódico The European Journal of Contraception & Reproductive Health Care, o estudo é um extrato da pesquisa de doutorado do sociólogo Negli Gallardo-Alvarado, defendido no Departamento de Tocoginecologia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Universidade. O pesquisador contou com financiamentos da Organização Mundial da Saúde (OMS), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Para Luis Bahamondes, professor emérito da Unicamp e orientador do doutorado, os resultados traçam um retrato acurado e detalhado sobre uma fatia negligenciada da população grávida, além de “um problema alarmante de saúde pública”. Raramente, diz o docente, a academia volta seu olhar para a ocorrência de gravidez não planejada antes dos 18 anos – pesquisas que incluem exclusivamente gestantes nessa faixa etária são ainda mais incomuns. De modo geral, as produções tratam de saúde sexual e reprodutiva de forma abrangente, contemplando a população em idade reprodutiva (de 15 a 49 anos) de forma genérica, além de não fazerem distinção entre grávidas ou não.

Mais do que mapear o fenômeno, o estudo pretendeu investigar a trajetória reprodutiva e o conhecimento das participantes sobre métodos contraceptivos. Gallardo-Alvarado considerou adolescência até os 20 anos, baseando-se em teorias recentes sobre desenvolvimento humano. “Ao longo do processo de amadurecimento, a adolescência é uma etapa bem particular, em comparação com os 25, 30, 49 anos. Um estudo com pessoas de 15 a 49 anos infelizmente não consegue responder a perguntas específicas de cada faixa etária”, argumenta.

O pesquisador desenvolveu um questionário específico buscando captar dados mais precisos e nuances que escapam a pesquisas generalistas, além de apurar o nível de conhecimento das entrevistadas sobre métodos contraceptivos e o histórico reprodutivo delas. Apesar de registrar um baixo conhecimento espontâneo sobre métodos contraceptivos, o levantamento mostrou que, quando a pergunta cita nominalmente a pílula anticoncepcional, o nível de reconhecimento das participantes aumenta: 96% das jovens gestantes afirmaram já ter pelo menos ouvido falar da pílula e de métodos injetáveis; preservativos foram reconhecidos por 93,1%, e o DIU (dispositivo intrauterino) por 78%.

A partir dos dados obtidos, o sociólogo produziu uma análise sociodemográfica, fundamentando-se em bibliografias sobre sociologia, adolescência, saúde pública e saúde sexual e reprodutiva. Na avaliação de Gallardo-Alvarado, as adolescentes que engravidam sem planejamento estão sendo privadas do direito de usufruir do corpo de forma segura e autônoma. “Quando 84% das entrevistadas reportaram que não planejaram a gestação, mas ficaram grávidas, isso quer dizer que, na sociedade brasileira, uma proporção muito alta delas não está conseguindo exercer com toda liberdade e segurança os direitos sexuais e reprodutivos – que a Organização Mundial da Saúde relaciona aos direitos humanos. Não consegue controlar o momento de engravidar, a quantidade de gestações e a própria possibilidade de ter filhos, porque esbarra em obstáculos que dificultam o exercício desses direitos – como falta de acesso a métodos contraceptivos, educação e informação.”

O pesquisador se surpreendeu ao constatar que morar com o parceiro e adiar o início da vida sexual atuam como fatores de proteção contra a gestação não planejada nessa parcela da população – em vez do status socioeconômico, por exemplo. “Mas quando olhamos para pesquisas feitas no Brasil sobre temas correlatos, vimos que o fato de ter parceiro promove uma sensação de estabilidade, o que faz com que as chances de reportar uma gravidez não planejada diminuam. Olhando para o nosso estudo, isso faz sentido”, observa Gallardo-Alvarado.

Estimular adolescentes a se comprometerem precocemente com um relacionamento sério e pregar abstinência sexual não é a solução. Para combater o fenômeno, Gallardo-Alvarado defende a urgência em garantir oportunidades para que essa população permaneça estudando, conclua o ensino médio e ingresse no ensino superior. É preciso, ainda, assegurar o fornecimento de métodos contraceptivos de longa duração na rede pública para todos, independentemente de faixa etária. “A falta de oportunidades está levando pessoas extremamente novas a assumirem papéis que são próprios da vida adulta. Elas estão pulando uma etapa de desenvolvimento e amadurecimento porque nós, como sociedade, não estamos fornecendo ferramentas para que a principal preocupação delas nessa etapa da vida não seja filho ou trabalho, mas estudar, ter sonhos e construir um plano de vida futura.”

Bahamondes lembra que a relação entre gravidez na adolescência e evasão escolar no Brasil é amplamente conhecida, assim como a inação do poder público. “Abandonando a escola, essas adolescentes terão piores empregos e rendas, além de menos oportunidades ao longo da vida. Esta é uma carga social difícil para o país. No entanto, o que o poder público faz com os números levantados? Muito pouco”, observa.

Para o orientador, o trabalho realizado por Gallardo-Alvarado contribui para a ampliação do olhar da medicina para um problema de saúde pública, injetando no Programa de Pós-Graduação da Tocoginecologia uma visão diferenciada e fecunda. “É como um sopro de vida para nós, médicos, que costumamos olhar a ciência sob uma única perspectiva. A atuação de cientistas sociais nos permite abrir os olhos, expandir nossa visão sobre o que acontece e não ficar olhando apenas para o parto, a cirurgia ou a doença.”

 

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